Texto retirado de
Assim Fal(h)ou ZaratustraEle acordou e viu uma outra pessoa igual a ele.
-Quem é você?
-Não está me reconhecendo?
-Si...Sim...você sou eu...é eu...é meu reflexo!
-Isso mesmo! E você deve ser o meu real, ou minha realidade...muito prazer.
E apertaram-se as mãos.
Após algum tempo de conversa descobriram que tinham vários gostos em comum. E continuaram:
-Mas o que te trouxe aqui para o meu lado?
-Vim conhecer mais de perto o local. É meio estranho, tudo ao contrário...
-Mas me diz um negócio, como foi possível você sair do espelho?
-Na verdade não sei. Quando me dei por conta estava aqui.
-Bom...quer dizer então que se você está aqui, quando eu for pra frente do espelho não vou ter reflexo?
-Se formos pensar de uma maneira simplista, sua afirmação é correta. Mas talvez essa afirmação não seja o espelho da verdade.
-Vamos ver o que acontece então...
-Não!
-O quê?
-Ninguém sabe o que pode acontecer se você passar na frente do espelho sem seu reflexo.
-Só vou saber indo lá.
-É perigoso. Existem histórias que contam fatos terríveis sobre isso!
-Ah é? E o que dizem essas teorias?
-Que teorias?
-Do meu reflexo no espelho!
-Eu sou seu reflexo.
-Ai meu Deus! Esse reflexo é muito complexo!
-Você que é complexo. Eu sou reflexo.
-Tá, tá...agora me conte as tais histórias.
-Está bem, reflita comigo.
-Certo.
-Como todo mundo sabe, a natureza do espelho é refletir, então você teria um segundo reflexo lá. Sendo assim, eu deixaria de ser seu reflexo e passaria a ter meu próprio reflexo no espelho. Eu me tornaria um real como você.
-Hum...tem mais versões?
-Várias.
-Prossiga.
-Eu posso ter vindo pra roubar o teu lugar e te jogar pra dentro do espelho.
-Você está me ameaçando?
-Não, é apenas uma suposição.
-Sei...mas olha lá hein?
-Olhar aonde?
-Esquece. Continue.
-A próxima hipótese é meio improvável.
-Qual é?
-Isto é um sonho, eu não estou aqui, eu sou apenas a sua imaginação.
-Você é um reflexo perigoso...
-Eu? Por quê?
-Porque você não é um reflexo ortodoxo. Na verdade é um paradoxo, que por ser muito prolixo tenta nos enlouquecer com seu discurso complexo.
-Peraí! Claro que sou ortodoxo! Eu seria heterodoxo se refletisse como um espelho convexo, mas não o faço. Por isso considero sua afirmação sem nexo.
-Sem nexo é você que fica me olhando com esse seu olhar fixo.
-Eu sou seu reflexo. Se você me olhar, obviamente eu vou te olhar também.
-Mas por que você não faz os mesmos gestos que eu faço? E por que não repete a minha fala?
-Digamos que já acabou o meu expediente.
-Hein?
-É. Só porque sou seu reflexo não quer dizer que eu sempre tenha que imitar você.
-Mas não é essa a função do reflexo?
-É, mas somente quando você se olha no espelho. Ou você acha que a gente tem paciência de ficar imitando vocês a toda hora?
E o homem calou-se, embasbacado. Quem aquele reflexo pensava que era pra ficar desafiando dessa forma? E o respeito com os seres superiores? Tenho que acabar com isso!
-Chega! Volte para o espelho!
-Por quê?
-Porque estou mandando.
-Quer saber de uma coisa, cansei de obedecer a você! A próxima vez que você for pra frente do espelho vou começar a fazer caretas!
-Vá pro espelho!
-Você não quer saber do resto?
-Que resto?
-Das histórias...
-Não, não...você já me encheu a paciência. Volte pra lá agora!
E o reflexo, assustado com a possibilidade de ter que voltar para o seu mundo, tenta sensibilizar o seu real.
-Eu prometo que não encho mais a paciência, mas me deixe ficar aqui, por favor...
-E o que eu ganho com isso?
-Bem, você ganha a minha companhia...
-Muito pouco.
-Hã...dinheiro?
-Quanto?
-Te dou um cheque no valor que você quiser!
-E se o cheque for sem fundo?
-Eu sou seu reflexo! Não confia em sua imagem e semelhança?
-Que garantia você me dá?
-Te dou minha palavra. Ou melhor, a sua.
-Bom...a minha palavra até que é confiável. Tá bem, tá bem...pode ficar. Eu tava precisando bater um papo com alguém tão inteligente quanto eu.
-Obrigado, muito obrigado!
-E então, onde estávamos?
-Contando o que aconteceria se você fosse pra frente do espelho sem seu reflexo.
-Ah, é...continue.
-Beleza. Existe uma variante da segunda hipótese.
-Qual era a segunda hipótese?
-Olha lá em cima do texto...a segunda é a que eu saí do espelho pra te jogar lá dentro...então, como eu saí do espelho, tornei-me real como você. Sendo assim, o primeiro que for pra frente do espelho poderá ser sugado e tornar-se-á o reflexo do outro.
-Será que isso é possível?
-Quem duvida é louco.
-...
-Voltando às suposições. Se você for pra frente do espelho talvez possa visitar o meu mundo, já que, nesse caso, eu teria conseguido fazer uma ligação entre o mundo reflexivo e o mundo real. Com tais barreiras abolidas, o tráfego de reflexos e reais por entre os dois mundos seria liberado, o que teria um lado bom e um ruim. O bom é que nós, reflexos, não seríamos mais escravos de vocês. O ruim é que os espelhos não serviriam para mais nada, já que teriam uma função de portal e não mais de acessório.
-Hmmm...interessante.
-Assim o mundo dos espelhos seria quase como o mundo dos sonhos, porém um pouco menos complexo.
-Mundo dos sonhos? Que papo é esse?
-Nunca ouviu falar do mundo dos sonhos?
-Não.
-Esses reais...ficam enclausurados em sua própria realidade e acabam esquecendo dos outros mundos. Mas chega, o mundo dos sonhos não merece ser do seu conhecimento.
-Ah, merece sim!
-Não merece e não será, pois estou voltando para o meu lugar agora!
-Não, fique aqui!
-Tarde demais, gotta go...
-O quê?
-Esquece...
-Nãããão!!!!
E ele acordou atônito.Olhou em volta: ninguém. Foi até o espelho, tudo normal. Mas quando virava-se de costas, pareceu-lhe ter visto alguma coisa diferente no espelho. Voltou-se rapidamente.
E então o reflexo mostrou-lhe a língua.